Profeticos 2.0

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Posted in Uncategorized by profeticos on novembro 24, 2009

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Uma tarde quente como sempre em Hortolândia, mais um que dá esmola para o “Amizade”, andarilho conhecido por seu sorriso fácil e papo agradável.

Eu quero saber dele porque sorri tanto mesmo sem nenhum luxo ou expectativa de melhora.
Me aproximo com receio, dou uns trocados e puxo papo, ele é muito amistoso, me senti como se estivesse numa sala confortável e arejada, mas sabia tanto quanto ele que estavamos no cruzamento da Av. da Emancipação com a R. das Flores e o semáforo de lá não estava lucrando como o Amizade esperava.

Perguntei se ele tinha família ou amigos e ele me respondeu com um sorriso largo.

_ Toda planta tem raíz, parceiro.

Nessa hora passou um homem que não retribuiu o cumprimento do Amizade, mas o mendigo continuou.

_ Tá vendo esse cara? Eu era assim, tinha responsabilidades, era mal-educado com quem eu não conhecia, enfim, estava preso nas minhas raízes.

Já não sorria tanto, o Amizade.

_ Não foi por querer que eu vim parar aqui não. Eu perdi tudo que as pessoas dão valor, dinheiro, casa, emprego, tudo. Minha mulher já não me achava atraente, meu patrão já não me achava competente e assim foi, até aqui.

Perguntei como ele perdeu tudo.

_ Eu não perdi tudo, só o que as pessoas dão valor… Tudo bem , eu conto, foi assim. Quando querem tomar seu dinheiro, tomam, não tem jeito. Me roubaram no jogo, eu bebia muito, não percebi que me fizeram pensar que era um blefe deles, aí apostei alto, eu tinha certeza que era um blefe e como vê não era. Me lasquei.

E sorriu de novo.

_ Cara foi aí que eu percebi como o mundo é podre, eu estava jogando entre amigos e me roubaram. Minha mulher fingiu estar furiosa e foi embora, graças a Deus.

Eu que sorri nessa hora.

_ É engraçado mesmo, minha mulher não me amava, acho até que casou com um dos caras que me roubaram, VACONA!

Nós dois sorrimos.

_ Na rua eu não tenho que aguentar meu patrão cobrando relatórios e resultados nem minha mulher com crise existencial e TPM, quem se aproxima de mim não está tramando me derrubar, hoje eu não alimento inveja no coração de ninguém. Isso não é bom?

Concordei mas o cara estava empolgado.

_ Roupas, eu ganho da D. Amelia, ela sempre separa roupas usadas do seu filho mais velho, banho, eu tomo uma vez por semana no buteco do Seu Jorge, ele não gosta muito da minha pessoa, mas temos negócios.

Nem precisei perguntar quais negócios.

_ É o seguinte, eu chamo aquilo de buteco, mas aquilo é um restaurante e dos bons, só vai grã-fino, então eu fico lá na frente gritando assim:

_ Ô seu Jorge, cadê meus gatinho? O senhor roubou meus gato, Safado!!! Pra fazer Strogonoff!!! Fritou os bichinho.

_ Tem freguês que ri, mas a maioria vai embora por que acredita no mendigo aqui. Quando eu tô lá na frente ninguém entra lá, caso a estória dos gatos não venha a dar certo eu finjo que estou passando mal e começo a vomitar, quer que eu te mostre?

Neguei prontamente enquanto ele enfiava o dedo na garganta, depois perguntei se o “Seu Jorge” não chamava a polícia.

_ Eu também tenho negócios com a polícia, eu passo informação sobre os traficantes, em troca eles garantem que nada me aconteça enquanto eu procuro meus gatinhos lá no buteco do Seu Jorge.

Mas eu ainda não tinha entendido os negócios dele com o Seu Jorge.

_ Bom, presta atenção, eu espanto a clientela do Seu Jorge e a polícia me defende. Não adianta. O seu Jorge fica na minha mão, então eu almoço, janto e tomo banho lá, ele diz que eu posso tomar mais banhos se eu quiser e até fazer a barba, mas, eu só escovo os dentes. Já imaginou? Como eu iria espantar os clientes estando limpo e de barba feita? O seu Jorge é velhaco.

Eu já estava saindo quando ele disse uma última coisa.

_ Eu sorrio porque sou feliz e sou feliz porque eu sei o que eu tenho, eu sei o que eu quero e sei do que eu preciso.

O cara é um sábio, pensei, quantas vezes eu me vi sofrendo querendo algo de que não preciso e esquecendo o valor das coisas que tenho.